
- Já tivemos nossos bons momentos. Não foram poucos. Estamos… – estamos? Não mais. - estávamos, desculpe, juntos desde meus 15 anos. Tenho 25 agora, com rosto de 21.. – fazer piada da idade é algo preocupante. Espero que este ponto não seja relembrado no decorrer da conversa. Ao menos ele riu. - Existem casais, casados, que não passaram por tanto quanto passamos… – era realmente difícil falar neste assunto. Realmente difícil e constrangedor. Principalmente sem uma dose de vodka. O vinho era bom, mas não o suficiente para escavar a alma a procura de sentimentos a tanto enterrados. – Posso pedir uma dose de vodka?
- Algum problema com o vinho? – claro que não. Só prefiro vodka. – Uma dose de vodka, por favor. – talvez ele fosse capaz de ler pensamentos. Ou será que falei? Maldita falta de noção. – Pode continuar. – assentiu com a cabeça.
- Nos conhecemos há 10 anos em uma loja de cd’s. - A loja, então fechada, reabriu as portas em minha mente. Aquele dia, sábado, 17 de julho,revivido. Não pela precisão das cenas, mas sim pela exatidão dos sentimentos. Conseguia-os sentir com a mesma intensidade. Com as mesmas reações, com o mesmo sorriso.
Lá estava eu, entrando na loja, ansioso pela minha encomenda. Love Me Tender, um vinil de Elvis Presley. Vinil? Elvis Presley? Não; não era algo comum a garotos da minha idade. Tudo muito, como era mesmo o termo que eles usavam comigo… “fresco”. Bermuda jeans surrada, camiseta branca, all star velho e um óculos de armação preta. Os cabelos assanhados e a barba, me envergonho deste fato, em estágio primário de crescimento. Lembro-me do orgulho dos poucos pêlos que meu queixo ostentava. Este era o visual de um fresco aos 15 anos. Este era o visual usado por mim aquele dia. Este era o visual usado por mim na maior parte de minha adolescência.
Entrei na loja. Logo à esquerda uma disputa acirrada era travada. Concorrentes; um grupo de garotas contra um de garotos, dos quais 2 eu… concentração na lembrança. O prêmio; um cd de Britney Spears, a novidade do momento. Love me tender, love true… Segui cantarolando ao balcão de entregas. Foquei meu pensamento no vinil. Era a melhor forma de conter o riso.
- Boa tarde? – não havia ninguém. E meu coração acelerava. – Alguém ai? Alô? – PÁ, PÁ, PÁ… nunca gostei destas atos extremos, mas bater no balcão de atendimento era a única atitude a ser tomada por um comprador ansioso pela sua encomenda.
- Calma, não precisa quebrar a loja. – virei-me. Logo atrás de mim, surgindo entre as prateleiras, carregando cd’s de Miss Kittin, Peaches, Plastique de Rêve; pensei que este gosto musical exótico era característica minha, surgia um garoto, provavelmente o atendente. Bermuda jeans, all star e uma camisa pretra, contrastando com sua pele branca…. agradeci por não ter escolhido minha camisa preta. Caso tivesse, estaríamos iguais. Andava calmamente em minha direção, olhando com caretas estranhas, às opções de compra de alguns clientes. Tudo isto enquanto passava a mão em seu lindo cabelo cacheado.
Não o tinha visto em meio a todo alvoroço por Britney e ele não é de passar desapercebido. Enquanto isto, na disputa, um dos garotos, valendo-se de um golpe baixo, falar mal sobre o cabelo de uma menina loira, tentou resgatar o cd, agora em posse das garotas. Com o cd em mãos ela sequer se importou. Andando em direção ao caixa com as amigas, exibia-o. Já os garotos, agora, buscavam consolo em Spice Girls.
- Têm outros deste no estoque. - era o atendente de cabelo cacheado, uns 20 anos diria ser sua idade. Tive inveja de sua barba. – Deveria ter reabastecido a prateleira hoje cedo. Mas é tão divertido vê-los brigando por um cd. Esta diversão não vale 25 reais.
- Nossa… – tão… sádico. Ao mesmo tempo tão… encantador. Ri concordando com ele. – Pensei em recriminar sua atitude, mas não teria me divertido se os cd’s estivessem no lugar certo.
- Se ao menos fosse um cd de Kylie, Madonna, faria questão de ajudá-los. Mas, Britney? – cara de desprezo. – Estou contribuindo para a salvação de suas almas. Agora você. – soltou os cd’s que carregava no balcão e foi me atender do outro lado. – Como posso ajudá-lo? Não me diga… Quer um daqueles cd’s?
- Exatamente isto. – mentir seria divertido.
- Deixa eu pensa… Acabar com minha diversão ou lhe convencer a comprar em outra loja. Sem esquecer de não dizer nada a nenhum deles? – se souber convenc… pare com isso. – Caso não aceite terei que usar de força bruta. – ele era encantador. Fazia-me rir.
- Na verdade não quero o cd, vim aqui com outro intuito. – conversar com você se tornou uma ótima consequência. – Mas agora quero o cd. – e você de brinde. Ou seria o cd de brinde?
- humm… um mentiroso. Ainda se divertindo comigo. – bonito como você é, não há como não se divertir. – Sua sentença por mentir é não receber o cd. A não ser que o motivo de sua vinda seja me ver. – acho que ele está me paquerando.
- Droga… tudo bem. - meu rosto esquentou. Tente não ficar vermelho agora. – Então quero apenas meu vinil de Elvis Presley. – ele conseguiu despertar meu lado simpático em menos de 5 minutos de conversa. Feito digno de palmas.
- O vinil de Elvis. Quem seria o comprador desta raridade? Foi a dúvida da minha semana. – ponto positivo para mim. - De qual ancião da sua família ele pertence. – droga… ponto negativo.
- É… hum… – dessa vez não poderia mentir. Mesmo sendo muito tentador. – meu. – falando bem baixo, pode ser que ele não escute. Talvez ele nem queira saber disto. – Gosto de Elvis.
- Por isto você ficou com o rosto vermelho, é fã de Elvis. Pensei que era por mim. – mais vermelho ainda. – Agora, me responda: o que você sabe sobre este álbum? – nossa. Lá estava ele, balançando o vinil em minha frente, questionando-me sobre Elvis. Que pessoa mais… encantadora.
- Você por acaso é algum parente distante da esfinge? – sua beleza negava esta pergunta. – Só vai me entregar se eu acertar? Se eu errar, vai me devorar?
- Sem gracinhas. Responda, ou não lhe entregarei. Quem faz as perguntas sou eu. – adorei ter aqueles olhos verdes fixos em meus olhos. Aquela expressão adoravelmente curiosa. Aquela boquinh… suspiros. Ele era verdadeiramente encantador.
- Tudo bem. – era hora de surpreender. – Este álbum foi lançado em novembro de 1956. É a trilha sonora, não completa, do filme de mesmo nome, Love Me Tender. Possui apenas 4 músicas. Love Me Tender, Poor Boy, We’re Gonna Move, Let Me. A canção Love Me Tender é considerada o maior sucesso de Elvis. Graças a ela o filme, que se chamaria The Reno Brothers, Os Irmãos Reno, recebeu o nome Love Me Tender. Se quiser posso dizer os tempos de cada música, – mentira, não poderia. Tudo para impressionar. – e os músicos que participaram do EP. – outra mentira. – E sim, ele é um EP e não um LP. Posso também lhe contar o motivo. – para quem mentiu duas vezes não fazia mal mentir uma terceira. Uma boa primeira impressão é essencial. Agora arrume os óculos. Demonstra mais seriedade. Isto, assim mesmo. – E então… – pela posição aberta de sua boca previ o resultado.
- Não, não precisa. – ainda bem. – Você tem quantos anos? 60? - estava tão acabado assim? Ao menos entregou-me o vinil. - Ou foi tudo para me impressionar? Porque, se foi… – pode desistir. Não vai conseguir. Acertei? – conseguiu. – lá estava ele sorrindo para mim. – Por isto você vai me pagar uma cerveja.
- Vou? – claro que vou. Mas era necessário ser feito um certo charme para ser levado mais a sério.
- Claro que vai. – exato.- Espere 10 minutos, é o tempo de acabar meu expediente. Também preciso trocar de roupa. – ele tinha notado. – Se não fosse a cor da camiseta estaríamos iguais. Melhor não parecermos um casal. – não antes da hora. – Não ainda. – incrível. Ele sabia ler pensamentos? É a única explicação lógica.
- Ahhh… Não esqueça, quero um cd de Britney. – sorri.
- CD DE BRITNEY. TÊM OUTROS? – fui escutado. – QUERO UM TAMBÉM. – o grupo de meninos largou o cd de Spice Girls a simples menção do nome Britney. Quanto fanatismo. Não sabem que ela faz playback e futuramente será careca? Também não sabia isto na época.
- Estraga prazeres. – o olhar dele não era de raiva, sim de diversão, quando me sussurrou estas palavras. – Ele falou que queria um cd, pessoal. Não que tem um aqui. Saibam diferenciar. O último suas amigas levaram. – as garotas sorriram e acenaram. – Escolham logo um. A loja irá fechar.
Esperei 10 minutos enquanto… qual o nome dele mesmo? Ok, não sei seu nome, mesmo assim beberemos cerveja juntos. Muito responsável da minha parte. Beber cerveja com um desconhecido. E se fosse um louco, tarado, maníaco sexual. Espero que não seja louco, mas maníaco sexual… bem que ele poderi… Pare com isso.
- Leonardo Maia. Pode me chamar de Leo. – nossa… dez minutos haviam se passado desde o pensamento sobre o nome. Mesmo assim ele o leu. – Aqui está seu cd. Não conte aos fanáticos por ela. Você consquistou o direito de tê-lo. Não te devorarei. – e era mesmo o cd. Envolto em um embrulho, provavelmente, para não chamar atenção.
- Quanto custa, Leo? – primeira vez que eu disse este nome. Ainda não sabia que ele seria gravado a fogo por cada parte de meu corpo.
- Já disse… você passou no teste da esfinge. Se quiser, ele custará outra pergunta. – qualquer uma. – Saber seu nome. – agora ele usava uma camisa pólo lilás e uma calça jeans. O all star era o mesmo.
- Thales Guerra. – apertei sua mão. Como era firme.
- Não pense que perdoei sua dívida. – qual delas? Se nos envolviam juntos pelad… controle seus hormônios. Cuidado com as espinhas. – Você ainda me deve uma cerveja. – só isto? – Este é o preço por ter me surpreendido musicalmente. Ou acha que saber seu nome cobre a dívida. – espero mesmo que não. – Vamos, ou devoro-te. - à vontade.