coffee and cigarettes

você tem meia hora pra mudar a minha vida.

deja vu no parque. Julho 14, 2009

Arquivado em: [no parque], [sem título] — edgeof7thfloor @ 11:58 pm

     Primeiramente; segure com cuidado o cigarro. Em seguida, acenda-o. Trague-o durante alguns segundos. Observe a ponta do cigarro acender. A fumaça quente entrar pela boca. Sinta-a passando pela traquéia, enebriando seus pulmões. Substituindo o oxigênio neles existente. Enchendo-os de vida. Vida, ou morte? Respire. Elimine toda a fumaça e, com ela, todos os seus problemas parecem ir juntos. Toda uma nova forma de respirar controlada por meus dedos. 20 anos após brincar neste parque, senti-me novamente criança. Feliz com sua nova brincadeira. Brincadeira esta que achava dominar.

     Seguro de minhas habilidades, cobicei um nível mais avançado; falar sem soltar a fumaça. Sempre ouvi ser uma ótima técnica. Capaz de identificar os verdadeiros fumantes no imenso mar de cuspidores de fumaça. Era hora do teste. Traguei o mais forte possível.

- Al… COF, COF, COF! – não. Melhor não tragar tanto na próxima tentativa. – Testando… – fumaça. – Som! – fumaça. – A, A, A. – fumaça. Última tentativa antes de concluir meu fracasso. – Um, doi… cof, cof. Droga. – celular vibrando. Ao menos não assutei os frequentadores da praça. Resumidos, nesta tarde, a um mendigo em sono profundo, e um bêbado treinando karaokê.

    Parque, balanço, cigarros, nuvens, gritos, ligações. Apenas um ingrediente faltava a este deja vu. Fechei os olhos. Apertando com força o celular, neguei-o mentalmente. Nunca acreditei na força do pensamento, mas era a única atitude a ser tomada. “Por favor, não seja ele. Por favor, por favor.” Ao menos, se fosse, a vibração do celular era agradável o bastante para me distrair. Lembrou-me quando em Barcelona o vibrad… não lembre deste dia. Não lembre. Foi tudo culpa do álcool.

     Parou. Milagrosamente parou. Não milagrosamente. Deve ter sido a força do meu pensamento. Vou usar isto com…OUTRA VEZ!? Ele não desistiria? Vou atender. Era a única forma de ser escutado, literalmente. Fechei os olhos. Tornava mais fácil. Não sei o porquê, mas tornava.

- Alô? - não tive tempo sequer para escutar som de respiração. – Leo, sei que temos muito a conversar. Mas não estou pronto. Peço um pouco de paciência. Prometo ligar quando estiver preparado. Vamos conversar. Não agora, – se é que você ainda não entendeu. – mas vamos. Desculpe, mas preciso deste tempo. Por favor, entenda.- ou terei o prazer de desligar esta incoveniente ligação.

- Leo? É o seu ex, atual, caso mal resolvido? – não era a voz do Leo. Muito menos este o efeito que surtia em mim. Um frio na barriga. Nossa, que coisa mais pré-adolescente. Não sentia desde… foque na ligação.

- … hum. Er… – será? Melhor arriscar. – Fernando? – cada letra pronunciada deste nome era um deleite para meus lábios. Incrível o poder surtido sobre eles por três sílabas. A partir deste momento evitarei falar palavras grandes como paralelepipedo. São tantas letras. Não saberia minha reação.

- O próprio! – como tive dúvidas? Aquele pigarro era inconfundível… e muito charmoso. - Liguei para saber como você está. Se está melhor da bebedeira. E dar umas dicas para a ressaca, claro. – meu sorriso ganhava vida, conforme seu interesse pelo meu bem-estar foi demonstrado. – Você está podendo falar? – claro que sim. Mesmo não podendo, falaria da mesma forma.

- Sim. – só estou deslumbrado pelo fato de você me ligar. – Estava distraido com a movimentação ao redor. Tem um bêbado cantando ao meu lado. – maravilha, Thales. Agora o que ele vai pensar? Que vejo mais interesse no bêbado cantarolante?  Muito inteligente da sua parte.

- O que acha - tente prestar atenção no que ele diz sem falar besteiras. Controle seu nervosismo e não se perca no assunto. – de irmos ao Don Jobin à noite? – claro que sim. Sou todo seu? – Jantar. Tomar um vinho. Você gosta de vinhos?

- Sim. – não muito, mas não importa.

- Tomamos um vinho. Conversamos trivialidades. – garanto que trivialidades não estarão no cadápio de conversas.

- A que horas? – nossa! Tente não parecer tão fácil na próxima resposta.

- Posso pegá-lo – claro que pode. –  por volta das oito horas – qualquer horário. –  em sua casa, – em qualquer lugar. – se assim preferir. – não tenho preferências. Como não parecer fácil com ele me falando assim?

- Combinado. – às seis horas estarei esperando. – Você sabe onde moro?

- Não. Pode me explicar? – se posso? Posso pedir para você morar em minha casa, se assim quiser. Onde eu moro mesmo? Ahh… lembrei. – … certo. – ele foi bastante paciente durante a explicação. O nervosismo foi o responsável pela constante confusão em minha cabeça. Em seu lugar não teria a mesma calma. – Às oito horas estarei em sua casa.

- Espero você. – claro que espero. Desligou.

     Era inacreditável. Desconhecido do olhar misterioso no aeroporto; alcóolatra incoveniente no bar; bom samaritano dos bêbados no jardim. Agora, acompanhante de jantar. Qual seria o próximo patamar alcançado por Fernando com o término da noite? Melhor evitar este assunto.

- Aiiiii…. – o cigarro me queimou um dedo.

     Já estava no fim. Restava apenas mais um trago. Dito o mais delicioso. E sim, era o mais delicioso. Mesmo não sendo, seria, após toda esta conversa.

- Delícia! – verdadeiramente delicioso e sem fumaças.

[nunca mais estipulo prazo para o próximo post. dei meu sangue por este.]

 

4 Responses to “deja vu no parque.”

  1. Maria Reis Says:

    Incrível! Amei esse! <3

  2. T!baH Says:

    taqueopariu!! eu quero esse livro

  3. Daura Says:

    Qdo vc vai publicar essa porcaria hen? kkkk

  4. Daura Says:

    Há esqueci… Porcaria ficaria entre aspas se as aspas tambem puderem dar um tom de ironia, em fim… aff


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