
- É o senhor quem está aguardando notícias sobre o paciente Marcos Cavalcanti?
- Eu mesmo.
- Procurei o senhor por todo hospital. Algumas enfermeiras me disseram que o viram na lanchonete.
- Senhor? Tenho 22 anos. Não é para tanto.
- Desculpe, não pen…
- Aqui estou. Pronto para escutar as novidades.
- Bem… Não acha melhor sentar para podermos falar melhor sob…
- Não precisa. Da palavra complicação à palavra morte… Sei tudo que você dirá. “Complicação”… Engraçado, o termo médico utilizado quando algo foge o controle.
- Não… mas, o senhor, não…
- Não se preocupe. Assisto vários programas médicos. “O quadro do paciente evoluiu de forma rápida. Tentamos de várias formas estabilizá-lo para que fosse possível uma intervenção cirúrgica. Por volta das 18h de hoje ele teve uma parada cardiorrespiratória. Conseguimos reanimá-lo, mas por volta das 19h ele não mais respondia. Fizemos o que foi possível, mas ele não resistiu.” Creio que errei alguns termos técnicos, mas não fugi a realidade. “Hora do óbito, 19h 13min.”
- Sei que não é profissional, mas gostaria de saber qual a relação de vocês?
- Qual você acha que é nossa relação?
- Bem… Existem algumas possibilidades…
-Algumas? Quanta limitação! Existem inúmeras possibilidades de relacionamento entre duas pessoas.
- Dentre essas qual a sua?
- Não importa. Tragédias como a morte e dever dinheiro são capazes de destruir qualquer relacionamento…
- Serei eu o limitado?
- Não venha me chamar de limitado agora. Você não tem este direito. Não depois de me forçar a experimentar as limitações da vida.
- Não sou eu a limitá-la.
- Tão pouco eu. Fiz de tudo, caso não pareça. Tentei. Pedi a ele para aderir o tratamento. Ele não quis. Limitou nosso relacionamento.
- Há quanto tempo ele sabe do câncer?
- Tempo o bastante para o tratamento surtir efeito. Teria dado certo. Mas não, escondeu. Não contou a ninguém. Preferiu não se tratar. Quando descobri já estava em estágio avançado. Ele estava muito magro. O vi vomitar sangue algumas vezes… Agora está morto.
- Por que só agora? Depois de resistir tanto ao tratamento. Por que procurar ajuda médica? Para passar em um hospital seus últimos dias?
- Eu o trouxe. Não poderia deixá-lo morrer desta forma. Com tudo inacabado. Tinha, tenho, muito a falar. Perdi minha oportunidade.
- Por que não antes? Não entendo.
- Ele disse que queria morrer assim. Estava feliz. Não queria sofrer.
- Ele me disse que sempre quis morrer ao lado de alguém que o amasse. E esta era a oportunidade. Por que adiar o inevitável e arriscar uma solitária morte?
- Isto não é justo. E eu, onde fico? Sozinho? Com este sentimento de culpa?
- Isto eu não posso responder.
- Não espero uma resposta sua. Muito menos a possibilidade de reparar meus erros. Esperava só pedir perdão… Merda. Isso não é hora de chorar.
- Isso é normal. Não precisa se preocupar. Pode chorar.
- Não me preocupo com você. Só queria entender como ele conseguia. Suportar o peso de uma doença. Suportar o peso de minhas traições. E ainda sorrir à noite, ao me ver.
- Isto só ele pode responder. Tanto isto, quanto o perdão que você precisa.
- Sei disto.
- Esperando você estar mais preparado.
- Como?
- Por isto veio ao hospital… Queria ter mais tempo. Queria lhe dar mais tempo. Queria viver até você estar preparado para perdir perdão… Ele não queria causar culpa em você.
- Cala a boca! Quem você pensa que é para saber tudo? Você não sabe nada.
- Queríamos entender sobre a resistência do paciente ao tratamento oferecido. Desde o início o questionamos. Ele só me contou por volta das 18h; após o reanimarmos, como você disse. Fez-me prometer não contar a ninguém.
- …..
- Talvez não o reste mais que algumas horas. Seria bom vê-lo e pedir este perdão antes das 19h e 13min, como você disse. Não acho bom carregar o peso de uma morte antes de consegui-lo.
- Ele ainda nã…
- Em nenhum momento declarei o óbito do paciente. Você tirou suas conclusões. Aproveitei para tirar as minhas sobre você.
- Seu…
- Já o testei o bastante. Você até perdeu a noção do tempo. Ainda são 18:47. Pelo seu laudo o óbito ocorrerá às 19h 13min. Correndo você ainda consegue. Quarto 401. Boa sorte.
- …
- Espero que consiga.
- Obrigado, Dr. Fernando.
Eles Dizem