coffee and cigarettes

você tem meia hora pra mudar a minha vida.

[sobre medos e perdas] junho 15, 2010

Filed under: [intervalo] — edgeof7thfloor @ 3:00 pm

- É o senhor quem está aguardando notícias sobre o paciente Marcos Cavalcanti?

- Eu mesmo.

- Procurei o senhor por todo hospital. Algumas enfermeiras me disseram que o viram na lanchonete.

- Senhor? Tenho 22 anos. Não é para tanto.

- Desculpe, não pen…

- Aqui estou. Pronto para escutar as novidades.

- Bem… Não acha melhor sentar para podermos falar melhor sob…

- Não precisa. Da palavra complicação à palavra morte… Sei tudo que você dirá.  “Complicação”… Engraçado, o termo médico utilizado quando algo foge o controle.

- Não… mas, o senhor, não…

- Não se preocupe. Assisto vários programas médicos. “O quadro do paciente evoluiu de forma rápida. Tentamos de várias formas estabilizá-lo para que fosse possível uma intervenção cirúrgica. Por volta das 18h de hoje ele teve uma parada cardiorrespiratória. Conseguimos reanimá-lo, mas por volta das 19h ele não mais respondia. Fizemos o que foi possível, mas ele não resistiu.” Creio que errei alguns termos técnicos, mas não fugi a realidade. “Hora do óbito, 19h 13min.”

- Sei que não é profissional, mas gostaria de saber qual a relação de vocês?

- Qual você acha que é nossa relação?

- Bem… Existem algumas possibilidades…

-Algumas? Quanta limitação! Existem inúmeras possibilidades de relacionamento entre duas pessoas.

- Dentre essas qual a sua?

- Não importa. Tragédias como a morte e dever dinheiro são capazes de destruir qualquer relacionamento…

- Serei eu o limitado?

- Não venha me chamar de limitado agora. Você não tem este direito. Não depois de me forçar a experimentar as limitações da vida.

- Não sou eu a limitá-la.

- Tão pouco eu. Fiz de tudo, caso não pareça. Tentei. Pedi a ele para aderir o tratamento. Ele não quis. Limitou nosso relacionamento.

- Há quanto tempo ele sabe do câncer?

- Tempo o bastante para o tratamento surtir efeito. Teria dado certo. Mas não, escondeu. Não contou a ninguém. Preferiu não se tratar. Quando descobri já estava em estágio avançado. Ele estava muito magro. O vi vomitar sangue algumas vezes… Agora está morto.

- Por que só agora? Depois de resistir tanto ao tratamento. Por que procurar ajuda médica? Para passar em um hospital seus últimos dias?

- Eu o trouxe. Não poderia deixá-lo morrer desta forma. Com tudo inacabado. Tinha, tenho, muito a falar. Perdi minha oportunidade.

- Por que não antes? Não entendo.

- Ele disse que queria morrer assim. Estava feliz. Não queria sofrer.

- Ele me disse que sempre quis morrer ao lado de alguém que o amasse. E esta era a oportunidade. Por que adiar o inevitável e arriscar uma solitária morte?

- Isto não é justo. E eu, onde fico? Sozinho? Com este sentimento de culpa?

- Isto eu não posso responder.

- Não espero uma resposta sua. Muito menos a possibilidade de reparar meus erros. Esperava só pedir perdão… Merda. Isso não é hora de chorar.

- Isso é normal. Não precisa se preocupar. Pode chorar.

- Não me preocupo com você. Só queria entender como ele conseguia. Suportar o peso de uma doença. Suportar o peso de minhas traições. E ainda sorrir à noite, ao me ver.

- Isto só ele pode responder. Tanto isto, quanto o perdão que você precisa.

- Sei disto.

- Esperando você estar mais preparado.

- Como?

- Por isto veio ao hospital… Queria ter mais tempo. Queria lhe dar mais tempo. Queria viver até você estar preparado para perdir perdão… Ele não queria causar culpa em você.

- Cala a boca! Quem você pensa que é para saber tudo? Você não sabe nada.

- Queríamos entender sobre a  resistência do paciente ao tratamento oferecido. Desde o início o questionamos. Ele só me contou  por volta das 18h; após o reanimarmos, como você disse. Fez-me prometer não contar a ninguém.

- …..

- Talvez não o reste mais que algumas horas. Seria bom vê-lo e pedir este perdão antes das 19h e 13min, como você disse. Não acho bom carregar o peso de uma morte antes de consegui-lo.

- Ele ainda nã…

- Em nenhum momento declarei o óbito do paciente. Você tirou suas conclusões. Aproveitei para tirar as minhas sobre você.

- Seu…

- Já o testei o bastante. Você até perdeu a noção do tempo. Ainda são 18:47. Pelo seu laudo o óbito ocorrerá às 19h 13min. Correndo você ainda consegue. Quarto 401. Boa sorte.

- …

- Espero que consiga.

- Obrigado, Dr. Fernando.

 

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