
- Esta foi a primeira vez em que declarei o óbito de um paciente aos seus familiares.
- Ele morreu? – imagina… Declarar óbito do paciente foi uma expressão usada apenas para dar peso à história, claro. O paciente não morreu. Está vivo e feliz ao lado de seu parceiro, e alguns cachorros adotados. Idiota!
- No mesmo dia. Não sei nem como resistiu por tanto tempo.
- Quer dizer que esta felicidade durou um dia? Nossa… – nada de cachorros ou casamento para este casal.
- Você também limita sentimentos à morte? Pena, pensei ter ensinado algo.
- Não… eu… não… – CALE A BOCA. NÃO PIORE A SITUAÇÃO.
- Não se preocupe. A vida possui uma sabedoria superior a minha. Mostrará mais rápido seu erro.
Parabéns a você que não sabe o momento de calar. Parabéns a você que tentou filosofar. E parabéns a você, Fernando, pela ótima resposta. E são por estes motivos que você não deveria mais filosofar, Thales.
- O enterro foi pior.
- Como pior? Ao menos em um enterro a dor é compartilhada.
- Concordo. Mas como dividir uma dor sem alguém perto?
- Não se divide. – que pergunta idiota.
- Exato. Ele estava só. O rapaz, que para mim, continua sem nome. -e você, continue calado, Thales. Não se intrometa neste desabafo. – Engraçado isto, não acha?
- Humm…. – responda apenas isto. Bom garoto. – Onde está a graça no que você diz? – droga… Quem deixou você responder? Agora ele vai lhe achar idiota.
- Sei o nome apenas do rapaz que morreu, Marcos Cavalcanti. O que continuou vivo, é um anonimo.
- Ahhh… Faz sentido. -mais sentido faria você se calar… Lembre, isto é um desabafo. – E a família…
- Poucas são as famílias que, como a sua, aprovam este tipo de relacionamento. Pelo que me pareceu estes rapazes abandonaram tudo para estarem juntos. Inclusive suas famílias.
- Como você sabe tanto? – boa pergunta, Thales. Assuste-o fazendo parecer que você é um controlador.
- Também estive presente.
- Por quê? – continue com este inquerito, Thales. Fará muito bem ao relacionamento todas estas perguntas. – O que fez você se interessar tanto nesta morte?
- Nada… nada em especial. – dois indícios de mentira… o falhar da voz e o desvio dos olhos. Você é um péssimo mentiroso, Fernando. – Foi minha primeira falha. Devia esta homenagem a ele. Afinal, a dedicação de um médico à profissão é para nunca deixar um paciente morrer em suas mãos. Só que você não se sabe disto até alguém morrer.
- Você encara a morte de uma forma muito profissional. “Minha primeira falha”. Estas palavras não condizem com tudo que antes você pregava. – de onde você está tirando esta linha de pensamento, Thales? Perfeita!
- Desculpe mas não concordo com seu comentário.
- Tratar a mesma morte que minutos antes pareceu lhe ensinar uma lição como uma falha. Principalmente tendo visto o efeito dela em outra vida… Custa acreditar que ambas visões partiram da mesma pessoa, concorda? – onde foi que você aprendeu a ser tão incisivo, Thales? Começarei a respeitá-lo mais.
- Você não… eu estou….
- Sem palavras? Notei. – não te reconheço, Thales. Onde vive esta sua parte? Nunca a vi por essas bandas. – Desculpe. Não tinha intenção.
- Desculpar? Sinto muito, mas isto não farei. – nota mental: nunca mais deixar esta sua versão assumir o controle. – Não posso deixar alguém pedir desculpas por expressar sua opinião. Principalmente quando totalmente correta.
- Como?
- Você tem razão. Não faz sentido nada disto. – ponto para este seu lado, Thales. Vou descobrir onde ele mora hoje mesmo e convidá-lo a conversar com você mais frequentemente. – Tenho medo de você, Thales.
-Medo? Nossa… sinto-me lisongeado. Sempre desejei gostar de alguém que sentisse medo de mim.
- Hahahah… Você me encanta, bobo. Tenho medo por precisar usar disfarces com você. Nem consigar.
- Por que isto lhe assusta? – que pessoa complicada.
- O desconhecido assusta. Esta sinceridade é novidade para mim. Sou de uma família altamente tradicional. Preocupada em como seria retratada na coluna social. Sou caçula de 3 homens. Não provei de uma verdadeira educação como a sua. Fui ensinado, ou melhor dizendo… treinado a fingir. A não causar vergonha…
- Não precisa se preocupar mais com isto.
- Não? Eles ainda são minha família. Nada mudou.
- Você mudou. Não precisa mais seguir os padrões impostos pela sua família. Você é adulto. Bem sucedido. Eles irão se orgulhar de você, não importa o que seja.
- Não é bem assim.
- Como não? Você é médico. Cirurgião de renome internacional. Professor de uma das maiores universidades do país. Dizer inteligente seria redundandia. – ainda bem que você concluiu isto sem minha ajuda. – Tem um sorriso lindo. Uma incrível presença de palco. – para não lhe chamar de lindo. – E uma…
- Filha de 3 anos.
- Exatamente. Uma linda filha de… – O Q… – UÊ?
- Eu sou casado, Thales. Casado há 5 anos. Pai de uma garotinha de 3 anos. A espera do segundo filho.
[em produção]
Eles Dizem