
Olhei para baixo; meu cadarço estava desamarrado. Seria um sinal? Um sinal que meu regresso ao Brasil seria… não sei. Era difícil fazer analogias entre um cadarço desamarrado e minha volta. Olhei para trás a procura de Pablo. Vê-lo seria meu melhor “sinal”. O único que me faria desistir. Tentei encontrá-lo próximo ao portão de embarque, mas fui impedido pelo intenso fluxo de pessoas.
Decidi voltar. Não sabia se por coragem ou medo, apenas andei. Seria loucura desistir de uma vida em Barcelona. Uma vida envolta em cultura e oportunidades que jamais seriam possíveis no Brasil.
Ao passar pelas pessoas que embarcavam pude notar diversos olhares de dúvida. Provavelmente sobre o motivo do retorno de um passageiro. No lugar de um deles também me perguntaria o mesmo.
Estava apenas a alguns passos do portão de embarque. Já conseguia enxergá-lo. Imaginar toda vida que teria morando, definitivamente, em Barcelona. Cada passo dado era um sonho concretizado, um medo superado. Foi então quando o vi e paralisei. No auge de seus trinta e tantos anos e uma boca… que boca. Estava perdido analisando o máximo de detalhes por segundo. Sua pele incrivelmente bronzeada; seu cabelo cuidadosamente penteado; sua altura impondo respeito. E seu olhar. O único que não consegui decifrar, tampouco queria.
Encarei-o fixamente enquanto perdi a noção de meus pensamentos. Não sabia se haviam passado dez segundos ou minutos, o tempo era um fator relevante. Era algo além de beleza que prendia meu olhar, algo além de qualquer admiração. Talvez fosse isto que os cientistas sentiam frente a um novo mistério. Este sentimento motivante, que… ele me olhou.
Foi imediato, me pus a andar em direção ao embarque, altamente constrangido. Apressei o passo enquanto senti meu rosto esquentar. Se um estranho estivesse parado me olhando como um retardado eu não guardaria uma boa primeira impresão sobre, tampouco espararia ter chance de criar uma nova. E por que eu estava andando em direção ao embarque se havia decidido ficar?
Dei meia volta e me supreendi. Nossos olhares se encontraram pela segunda vez. O curto período em que fiquei sem ação foi suficiente para tingir meu rosto em um vermelho digno de Almodóvar. Virei-me e continuei a caminho do embarque. Agora era definitivo. Não poderia mais voltar. Que impressão deixaria se, pela terceira vez, nossos olhares se encontrassem?
Eles Dizem