coffee and cigarettes

você tem meia hora pra mudar a minha vida.

[Um Ano Depois] Setembro 5, 2009

Arquivado em: [passado], [sem título] — edgeof7thfloor @ 6:22 pm

- E assim completamos um ano. – e assim acabei mais uma dose de vodka. Preciso de outra, antes de passar o efeito e o desabafo parar.

- De namoro.

- Namoro? Não tinhamos um relacionamento, que dirá um namoro. Era algo sem nome, mas bom o suficiente para não querermos definir. Estávamos, exclusivamente, juntos. Mas, escondidos. Ninguém sabia sobre nós.

- Por quê? – tem certeza que você é médico e não analista?

- Ele sempre quis o máximo de descrição possível. Só dizia que era o jeito dele. Visitas à loja de cd’s. Tardes em bares. Conversas, cervejas… alguns poucos beijos escondidos. E cigarros, muitos cigarros. Eu sempre era passivo. Como fumante, claro. Não na cama. Na cama eu… – CALE A BOCA. Você está passando vergonha. Assumir a preferência na cama logo no primeiro encontro? Não faz isso comigo, vodka.

- HAHAHAHAHHA… – meu Deus. Estou me envergonhando tanto. – Desculpe… prometo me controlar e não rir.

- Eu que peço desculpas. Falando coisas sem sentido. – é bom se controlar da próxima vez.

- Foi então que vocês decidiram morar juntos? – mais um gole de vinho. Será que médicos têm uma maior resistência a álcool? Quantas taças já foram? Duas, seis… sete. Sete taças.

- SETE?

- Sete? – DROGA. PARE DE VERBALIZAR PENSAMENTO. Você é louco? E onde você enxergou sete taças? Têm apenas cinco na mesa. A mesma quantidade de doses de vodca que você bebeu. IDIOTA. Enfim… – Você está bem? – estou fazendo papel de idiota? Não agora, não agora. Você está falando sobre dez anos de sua vida que nunca foram desabafados. Não perca o foco agora. Por favor. – Prefere mudar o assunto?

- Não. – TRAC… ótimo. Você conseguiu chamar atenção em um dos melhores restaurantes da cidade. Lembre-se de nunca mais bater os talheres no prato. Nunca mais.. – Desculpe.

- Já podemos ir embora se quis…

- No dia que completamos um ano planejei acabar. Um ano, e permanecíamos da mesma forma que começamos, como amigos que se beijam. Isto não me agradava… não mais…

[em produção]

 

Conversas, Cervejas, Beijos. Julho 30, 2009

Arquivado em: [passado], [sem título] — edgeof7thfloor @ 5:08 pm

- Quer dizer que você tem 15 aninhos? – gargalhadas polvilhadas com sarcasmo. Por me proporcionar esta experiência inesquecível, dedico meus sentimentos à cerveja. Na verdade, 5 cervejas… Tudo bem, tudo bem. Foram 12, assumo.

Temendo a capacidade de embriaguês de bebidas fermentadas, deixei todas as 12 por conta de Leo. Enquanto acompanhado por uma dose de vodka com limão, ria dos sintomas de sua bebedeira. Ao mesmo tempo que rezava pela minha sobriedade. Por isto o limão. Para disfarçar o gosto forte do álcool. Não que isto me mantivesse sóbrio. Apenas ajudaria com as ânsias. Dia quente, bebida forte. Não queria vômitos celebrando o fim da tarde.

- Sim, 15 anos. – malditos sejam os que inferiorizam os adolescentes por sua idade. – E você? 20 e quanto? – senhor mais velho. Mais perto da invalidez, esterilidade. Mais perto da morte. RÁ!

- 20? Tenho 17 . – 17? Rindo da minha idade com toda esta diferença de dois anos?

- Qual o motivo da graça se temos praticamente a mesma idade? – Não culpe o rapaz encantador, não culpe o rapaz bonito e encantador. Culpe a cerveja.

- Desculpe. Mas você é tão novinho. Tenho medo que se apaixone por mim. – e quanta prepotência estes dois anos acrescentaram em sua personalidade… Ou será que foi a cerveja? Ao menos a barba era devido à idade, não ao álcool.

- Eu? Thales? – quem mais seria? – Apaixonado? Por você? – mais uma dose de vodka e eu concordaria. – Nos conhecemos hoje rapaz. Você nem sabe se sou gay. – será que sou tão pintoso assim? Culpa das malditas bonecas na infância. – Mais uma dose de vodka, por favor. Preciso beber para não conc… – …ordar. – rir.

- Não precisa ficar envergonhado. – bebeu a cerveja. Das duas uma; ou o copo hesitava ir em direção à sua boca, ou ele não estava mais em condições de levá-lo ao local certo. Parte da cerveja escorria em seu ombro. – É fácil ficar apaixonado por mim. – não se todos o verem vesgo como vejo. – Você não seria o primeiro. – Sorriu entre espumas de cerveja. Apenas o primeiro a vê-lo assim e se apaixonar.

- Acho que preciso ir. – acho? O dia, transformado em noite, gritava-me esta necessidade.

- JÁ? – não precisa cuspir tanto. – Ainda estamos na décima cerveja.

- Décima segunda. – correção.

- Décima segunda, que seja. Então, por que ir agora? Está cedo. Ainda são oito horas. – cedo para você.

- Não posso chegar tarde em casa. Minha… – prepare-se para a gargalhada. – minha… – respire fundo. Feche os olhos, talvez ajude. – mãe brigaria comigo… – ótimo. Você acaba de destruir qualquer oportunidade de beijar esta linda boca rosada. – Gostaria de ficar, mas já estou bastante atrás… – oi? Com… Não interessa. Apenas o beije.

………………………………………………… Mente vazia modo on ………………………………………

- Não é bom você deixar sua mãe preocupada. Vá logo. – ……. – Vou beber mais uma e também vou. Estou cansado e um pouco bêbado. – incrível. Demorei alguns segundos para recobrar a noção dos pensamentos. Foi tão inusitado. Tão romântico. Tão sexy. Além de, momentaneamente, separar-me de meus pensamentos. – Diga a sua mãe que quero conhecê-la. Saber quem é a mulher capaz de afastá-lo de meus encantos. – também queria conhecê-la. A mãe que conhecia não era capaz disto.

- Direi a ela. – minha mãe era a última pessoa em quem queria pensar agora… Inspira. Expira. Inspira. Expira. Ins…

- Você não precisa ir?

- Estou indo. Só estava descansando porque perdi o… – cale a boca. Não precisa dizer que perdeu o fôlego com o beijo. Levante. – Estou indo. – agora ande. – Estou indo. Até mais.

- Esqueceu seu vinil de Elvis e o cd de Britney. Ou foi deixado de propósito como uma desculpa para me ver? – sorria, foi engraçado. Calma. Ande. Pegue a sacola. Cuidado para não balançá-la muito com sua tremedeira. Sorria novamente. Volte ao… – Vem aqui. – obrigado por segurar meu braço. Agora saberia de minha tremedeira. – Quero um beijo de despedida. – ………….. mesno efeito calmante e esvaziador de pensamentos. – Passe lá na loja amanhã. Largo no mesmo horário.

- Ok. – nos veríamos amanhã. Era um encontro. Sentiria este beijo novamente.

- Não. – não? Como assim? Não nos beijariam… – Você não parece gay. – claro que era isso. Afinal, ele não lia pensamentos… Espero. – Eu que estou bêbado o suficiente para insinuar isto. Desde que nos encontramos na loja estou te paquerando. Você não correspondia. Tive que arriscar… – sorri. – Agora vá. Não quero que a bronca que você levará de sua mãe seja tema de nossa conversa amanhã.

- Ok.

- Cinco horas. Não se atrase. – claro que não me atrasarei.

- Não se preocupe. Estarei lá. – andei.

A única lembrança de nosso beijo era o gosto de cerveja em meus lábios. Até que bebidas fermentadas não são tão ruins.

 

Na cama. Julho 23, 2009

Arquivado em: [sem título] — edgeof7thfloor @ 8:56 pm

     “Falar sobre sexo? Hummmm… que complexo. São tantos gêneros, formas, números. Sexo hétero; gera bebês. Sexo gay; gera prazeres. Sexo lésbico; gera… dedos? Nossa, quantos dedos. Prefiro não citá-lo.

     Sexo, mais especificamente, o gay. Como poderíamos explicar? Como explicaríamos algo no qual não dominamos a prática? Mesmo com toda teoria em mente. Beijar, tirar a roupa, pegar n… foco. Que tal um exemplo? Mas qual exatidão de detalhes daria a devida credibilidade? Já sei! Deixarei-o no mundo das libidinosas entrelinhas. Onde apenas mentes promíscuas o suficiente são capazes de adentrar… Não. Assim envergonharei o sangue sádico a pulsar em minhas veias. O sofrer remete ao prazer. E o prazer… ESPERE! Isto é algo sexual. É um começo. Rápido… papel, caneta. Agora, comece o texto… você consegue.”

     Chegando ao Motel, fomos direto ao quarto. Começamos a… 

- MOTEL? Não, não, não, não… Nada disso. Não me desvalorize. Sou um rapaz de família. E não sou tão fácil assim. Tudo bem Fernando me levar ao Motel. Não há problemas. Só não me faça parecer um praticante assíduo de sexo. Se é para escrever, escreva direito. Quero meu devido valor. Não me faça vir aqui novamente dar o mesmo recado. Pode continuar. E NÃO SEJA MUITO EXPLÍCITO!

[devaneios aleatórios - parte 1]

 

- Não quer tirar a camisa? – este tipo de ordem envolta em gentiliza era impossível de rejeitar. – Ajudaria a ficar mais confortável. – e vulnerável. Não levando em conta a vulnerabilidade devido ao elevado teor alcóolico.

     Claro que quero tirar a camisa. Não apenas a camisa. Como a calç… pare. Estes pensamentos eróticos  já nos colocaram em péssimas situações.

- Não, estou com um pouco de frio. – frio? – HAHAHAHAHHA! – mentira mal contada mais gargalhada histérica; igual a mentira detectada. Maldita vodka. – Desculpe.

- Vem. – ao menos ele riu. – Eu te ajudo. – não. Não ajude. Prefiro continuar vestid… agora é tarde. – Assim está melhor.

     Pronto. Quarto de motel, cama, Fernando, eu, camisa no chão, isso não acabará bem. Acabará maravilhosamente bem. Calma… controle estas mãos, Fernando. Controle-as. Tente não colocá-las em mim com estas intenções. Afaste-se. Tente não respirar tão perto. Tente não me bei… beijar assim. Não… não tire sua camisa. Nossa, que corpo. Só para mim? Por favor, não deite sobre mim. Evite este encontro de corpos! Os batimentos harmoniosos do coração. O calor de nossas respirações sincronizadas. Quanto calor. O suor em nossos corpos funcionava como cola; impedindo nosso afastamento. O que mais poderia faltar?

     Então, veio o olhar. O olhar capaz de enxergar. Verdadeiramente enxergar. Penetrar onde apenas a vodka é capaz de ir. Capaz de embriagar. Escavar sentimentos. Entretanto, este olhar, apenas olhava. Não desejava sentimentos profundos, desejava-me. Fotografava cada centímetro de meu corpo neste momento. Conseguia me enxergar.

- Algum problema? – constrangimento modo on. Envolvi-me tanto neste momento, em aproveitar cada segundo, que não notei. Era como se mente e corpo fossem independentes. Desempenhando funções contraditórias, nas quais não podia interferir.  Meus braços, cruzados em volta de meu corpo, queriam protegê-lo, enquanto minha mente, independente do tempo, mostrava-me cenas de prazeres futuros.

- Nada. É só que…. – melhor não começar o assunto. – nada.

- Fale. Vai deixar a intimidade de nossos corpos ser maior que a de nossos pensamentos? – quanta beleza em palavras tão simples. Era difícil de acreditar que ele não as tivesse decorado de um livro.

- Seu olhar… – abaixei os olhos. Rosto quente. Vergonha aparente. Termine a frase.- …consegue me enxergar. Não enxergar, enxergar de ver. Enxergar quem eu sou. Minha alma. Não alma, alma. Mas consegue me enxergar. Não que esteja dizendo que você é cego ou… – CALE-SE. NÃO PIORE AS COISAS. – Calei a boca.

- HAHAHAHAHAHA. – por isto Amanda não parou de conversar com você. Sua risada é deliciosa. – Desculpe. Mas vê-lo envergonhado é incrível. As maças de seu rosto ficam coradas. Suas orelhas… HAHAHAHAHAH. – ótimo. Foi-se a seriedade do momento graças a suas explicações essenciais. – Você – mudou o olhar. – não gosta de quando te olho? – a mutação deste olhar era incrível. Fixando-o em meus olhos era capaz de ler pensamentos. – Desculpe. - tirando meus braços da posição de defesa no qual se encontravam, Fernando deitou a cabeça em meu peito.

- Não… não é isto. - aproximei sua cabeça da minha. Nossa respiração, novamente, tornou-se uma. Sorrimos. De sua testa escorria uma gota de suor. – É que nunca fui olhado desta maneira. – nunca me olhei desta maneira. Direcionei para a gota em sua testa o olhar mais intenso que pude. Intenso como os direcionados a mim por Fernando. Observei seu movimento, sua trajetória. Senti-me um idiota. – Não sei como interagir quando sou olhado assim. – não sei olhar com intensidade algo repugnante como uma gota de suor. Quanto mais interagir com toda esta potencia ocular.

- Se nunca lhe olharam desta maneira, nunca lhe enxergaram de verdade. Assim consigo enxergar sua alma. – de onde ele tirava estas palavras? Sinto-me como o personagem de um livro de romance piégas. Nenhum ser vivo diria estas palavras tão apaixonantes em tal momento. Deveriam ser decoradas de algum filme. – Agora venha. Deixe-me senti-lo.

     Nos beijamos em um beijo que não parecia ter fim. Nos beijamos em um beijo que conectou minha mente e meu corpo. Agora ambas tinham o mesmo desejo. A mesma dúvida. Queriam retardar o fim. Queriam acelerar o fim. Queriam mais… queriam mais… conseguiram mais.

 

Era uma vez na sala Julho 20, 2009

Arquivado em: [era uma vez], [sem título] — edgeof7thfloor @ 1:42 am

     NÃO PODE SER…

     Feche os olhos. Mentalize. Nada disto é real. É uma ilusão. Claro que é uma ilusão. Devido ao estresse em escolher a roupa. Será que estou sonhando e perdi a hora do jantar? Ou a porta de meu quarto é um portal a uma realidade hippie onde todos são amigos e vivem em paz e amor?

    Relembre a cena: Fernando, claro, incrivelmente charmoso, sentando no sofá. Usava uma camisa social azul clara, com litras horizontais. Jeans escuro e um sapatênis bege. Fiquei aliviado. Minha roupa poderia não estar à altura, mas, ao menos, não causaria vexames. Ao seu lado, uma empolgada Amanda gargalhava histericamente. O grau de intimidade entre eles era tamanho, a ponto de existir contato físico nos intervalos entre as gargalhadas. Em contrapartida, para meu espanto, Fernando sorria. Esta poderia ser minha preocupação, mas não era. Ele parecia se divertir com o assunto.

     Na poltrona, em frente ao sofá, estava sentad…

- Thales, está brincando de cabra cega? – fui descoberto. Na verdade sequer tentei me esconder. O estado de choque não permitia. - Siga minha voz…. – tentativa, falha, de voz fantasmagórica. Lembrou-me uma cabra.- Tente me encontrar. – béééé..ééé

 Não teve graça, Amanda. – comecei a passar vergonha; ÓTIMO! Ainda não saímos de casa e estou de olhos fechados. 

- Só você não achou graça. – era verdade. Abrindo os olhos vi os belos dentes de Fernando sorrindo para mim. Ou seria de mim. Leo, provando não ser um delírio, também sorria. Não com os dentes, como os outros, mas com os olhos. Conheço bem este sorriso. Um dos motivos de minha paixão.

- Verdade, Thales. – obrigado por confirmar, Fernando. Preciso mesmo de mais motivos para Amanda rir de mim.  - Vamos indo?

- É ele? – meu Deus, não permita que eu passe tamanha vergonha. – É ele seu amante espanhol? – Amanda não sabia como ser discreta. Não sabia sussurrar. E não sabia que não sabia fazer isto. E eu não mais sabia o que estava dizendo. Sinalizei negativamente. Por favor, entend… DROGA, ELE NOTOU!

- Como? – Fernando escutou? Leo escutou? Eu escutei. Vocês escutaram? – Falou algo? – não, responda que não. Por favor, Amanda. Ao menos um dia se porte como minha irmã.

- Ela nã…

- Foi comigo que ela falou. - fui interrompido, por Leo. Logo ele a me ajudar. Melhor Fernando saber a verd… não. Melhor a proteção inesperada do ex-namorado à humilhação com o atual… O atual…  Fernando. – Este não é o amante de Thales, Amanda. – obrigado, Leo. Mas não precisava ser tão explíc… – Não namoramos mais para ele ser chamado assim. Eles estão namorando, acho. Se bem que o mais provável é que seja apenas sexo casual. Thales é tão facilmente usado. Não me espantaria. Estou certo, meu bem? - este riso sarcástico. Este olhar. Esta mão nos cabelos.

     Respire. Respire. RESPIRE…

- Não falei “amante”. – Amanda e as aspas. Agora era tarde para remediar a situação. – Falei “Amanda”. A-MAN-DA. Estava falando comigo. Sou louca. Algumas vezes isto acontece. – ótima resposta, Amanda. Muito boa mesmo. Além de péssimo o momento, uma das piores desculpas já inventadas. Mesmo sendo verdade a parte da louca.

- Vamos indo? – este ritmo forte de respiração deixou-me tonto. Nossa… cuidado para não desmaiar. Desmaiar lhe impedirá de matar Leonardo. – Está ficando tarde.

- Vamos. – Fernando também parecia constrangido quando levantou. Um maravilhoso jantar nos esperava. No cadápio, silencio como entrada. Constrangimento, como prato principal.

- Sim, sim… – o calor em meu rosto foi capaz de superar o frio em minha barriga. Preferi não imaginar a intensidade do vermelho que me tingia.

- Não esqueça de pedir a Thales o prato princ…

- LEONARDO MAIA! – o limite de tolerância fora extravasado, mas o respeito deveria ser mantido. – CALE ESSA MERD…

- Não precisa ficar nervoso, Thales. – oi? Minha consciência tem uma voz identica a de Fernando. - No lugar de seu ex namorado também estaria assim, agressivo. – não era minha consciência. Era o próprio Fernando. – Afinal, estragar o relacionamento com uma pessoa - idiota? Submissa? Indecisa? Insegura? Nossa, não deve ser muito difícil. – inteligente, encantadora, simpática, linda como você. Nossa… não sei o que eu faria. Seriam várias noites de choro e prozac para superar. Poderia precisar de um pouco de terapia também. – o… qu… quê? Com… Oi? Cada nova palavra dita por Fernando era conferida, entre vários beliscões em meu braço, pela minha arte de leitura labial. . Queria ter certeza de não estar sonhando. – Vamos… não quero que percarmos nossa reserva por tamanha infantilidade. Será uma noite muito especial. Afinal, é nossa primeira juntos. Tenham uma boa noite.

     Esta é a imponência que eu sabia existir.

- Tchau, Thales. – Amanda… que pessoa inacreditável. Dar tchau e sorrir neste momento. Sorri. Não apenas de Amanda, também de Leo. De Leo e seu olhar de frustração. Provavelmente fora a primeira resposta ao seu sarcasmo. – Divirta-se. Até amanhã. – odeio gostar da minha irmã.  

 

Antes. Julho 18, 2009

Arquivado em: [passado], [sem título] — edgeof7thfloor @ 4:14 pm

 - Já tivemos nossos bons momentos. Não foram poucos. Estamos… – estamos? Não mais. -  estávamos,  desculpe, juntos desde meus 15 anos. Tenho 25 agora, com rosto de 21.. – fazer piada da idade é algo preocupante. Espero que este ponto não seja relembrado no decorrer da conversa. Ao menos ele riu. -  Existem casais, casados, que não passaram por tanto quanto passamos… – era realmente difícil falar neste assunto. Realmente difícil e constrangedor. Principalmente sem uma dose de vodka. O vinho era bom, mas não o suficiente para escavar a alma a procura de sentimentos a tanto enterrados. – Posso pedir uma dose de vodka?

- Algum problema com o vinho? – claro que não. Só prefiro vodka. – Uma dose de vodka, por favor. – talvez ele fosse capaz de ler pensamentos. Ou será que falei? Maldita falta de noção. – Pode continuar. – assentiu com a cabeça.

- Nos conhecemos há 10 anos em uma loja de cd’s. -  A loja, então fechada, reabriu as portas em minha mente. Aquele dia, sábado, 17 de julho,revivido. Não pela precisão das cenas, mas sim pela exatidão dos sentimentos. Conseguia-os sentir com a mesma intensidade. Com as mesmas reações, com o mesmo sorriso.

     Lá estava eu, entrando na loja, ansioso pela minha encomenda. Love Me Tender, um vinil de Elvis Presley. Vinil? Elvis Presley? Não; não era algo comum a garotos da minha idade. Tudo muito, como era mesmo o termo que eles usavam comigo… “fresco”. Bermuda jeans surrada, camiseta branca, all star velho e um óculos de armação preta. Os cabelos assanhados e a barba, me envergonho deste fato, em estágio primário de crescimento. Lembro-me do orgulho dos poucos pêlos que meu queixo ostentava. Este era o visual de um fresco aos 15 anos. Este era o visual usado por mim aquele dia. Este era o visual usado por mim na maior parte de minha adolescência.

     Entrei na loja. Logo à esquerda uma disputa acirrada era travada. Concorrentes; um grupo de garotas contra um de garotos, dos quais 2 eu… concentração na lembrança. O prêmio; um cd de Britney Spears, a novidade do momento. Love me tender,  love true… Segui cantarolando ao balcão de entregas. Foquei meu pensamento no vinil. Era a melhor forma de conter o riso.

- Boa tarde? – não havia ninguém. E meu coração acelerava. – Alguém ai? Alô? – PÁ, PÁ, PÁ… nunca gostei destas atos extremos, mas bater no balcão de atendimento era a única atitude a ser tomada por um comprador ansioso pela sua encomenda.

- Calma, não precisa quebrar a loja. – virei-me. Logo atrás de mim, surgindo entre as prateleiras, carregando cd’s de Miss Kittin, Peaches, Plastique de Rêve; pensei que este gosto musical exótico era característica minha, surgia um garoto, provavelmente o atendente. Bermuda jeans, all star e uma camisa pretra, contrastando com sua pele branca…. agradeci por não ter escolhido minha camisa preta. Caso tivesse, estaríamos iguais. Andava calmamente em minha direção, olhando com caretas estranhas, às opções de compra de alguns clientes. Tudo isto enquanto passava a mão em seu lindo cabelo cacheado.

     Não o tinha visto em meio a todo alvoroço por Britney e ele não é de passar desapercebido. Enquanto isto, na disputa, um dos garotos, valendo-se de um golpe baixo, falar mal sobre o cabelo de uma menina loira, tentou resgatar o cd, agora em posse das garotas. Com o cd em mãos ela sequer se importou. Andando em direção ao caixa com as amigas, exibia-o. Já os garotos, agora, buscavam consolo em Spice Girls

- Têm outros deste no estoque. - era o atendente de cabelo cacheado, uns 20 anos diria ser sua idade. Tive inveja de sua barba. – Deveria ter reabastecido a prateleira hoje cedo. Mas é tão divertido vê-los brigando por um cd. Esta diversão não vale 25 reais.

- Nossa… – tão… sádico. Ao mesmo tempo tão… encantador. Ri concordando com ele. – Pensei em recriminar sua atitude, mas não teria me divertido se os cd’s estivessem no lugar certo.

- Se ao menos fosse um cd de Kylie, Madonna, faria questão de ajudá-los. Mas, Britney? – cara de desprezo. – Estou contribuindo para a salvação de suas almas. Agora você. – soltou os cd’s que carregava no balcão e foi me atender do outro lado. – Como posso ajudá-lo? Não me diga… Quer um daqueles cd’s?

- Exatamente isto. – mentir seria divertido.

- Deixa eu pensa… Acabar com minha diversão ou lhe convencer a comprar em outra loja. Sem esquecer de não dizer nada a nenhum deles? – se souber convenc… pare com isso. – Caso não aceite terei que usar de força bruta. – ele era encantador. Fazia-me rir.

- Na verdade não quero o cd, vim aqui com outro intuito. – conversar com você se tornou uma ótima consequência. – Mas agora quero o cd. – e você de brinde. Ou seria o cd de brinde?

- humm… um mentiroso. Ainda se divertindo comigo. – bonito como você é, não há como não se divertir. – Sua sentença por mentir é não receber o cd. A não ser que o motivo de sua vinda seja me ver. – acho que ele está me paquerando.

- Droga… tudo bem. - meu rosto esquentou. Tente não ficar vermelho agora. – Então quero apenas meu vinil de Elvis Presley. – ele conseguiu despertar meu lado simpático em menos de 5 minutos de conversa. Feito digno de palmas.

- O vinil de Elvis. Quem seria o comprador desta raridade? Foi a dúvida da minha semana. – ponto positivo para mim. -  De qual ancião da sua família ele pertence. – droga… ponto negativo.

- É… hum… – dessa vez não poderia mentir. Mesmo sendo muito tentador. – meu. – falando bem baixo, pode ser que ele não escute. Talvez ele nem queira saber disto. – Gosto de Elvis.

- Por isto você ficou com o rosto vermelho, é fã de Elvis. Pensei que era por mim. – mais vermelho ainda. – Agora, me responda: o que você sabe sobre este álbum? – nossa. Lá estava ele, balançando o vinil em minha frente, questionando-me sobre Elvis. Que pessoa mais… encantadora.

- Você por acaso é algum parente distante da esfinge? – sua beleza negava esta pergunta. – Só vai me entregar se eu acertar? Se eu errar, vai me devorar?

- Sem gracinhas. Responda, ou não lhe entregarei. Quem faz as perguntas sou eu. – adorei ter aqueles olhos verdes fixos em meus olhos. Aquela expressão adoravelmente curiosa. Aquela boquinh… suspiros. Ele era verdadeiramente encantador.

- Tudo bem. – era hora de surpreender. – Este álbum foi lançado em novembro de 1956. É a trilha sonora, não completa, do filme de mesmo nome, Love Me Tender. Possui apenas 4 músicas. Love Me Tender, Poor Boy, We’re Gonna Move, Let Me. A canção Love Me Tender é considerada o maior sucesso de Elvis. Graças a ela o filme, que se chamaria The Reno Brothers, Os Irmãos Reno, recebeu o nome Love Me Tender. Se quiser posso dizer os tempos de cada música, – mentira, não poderia. Tudo para impressionar. – e os músicos que participaram do EP. – outra mentira. – E sim, ele é um EP e não um LP. Posso também lhe contar o motivo. – para quem mentiu duas vezes não fazia mal mentir uma terceira. Uma boa primeira impressão é essencial. Agora arrume os óculos. Demonstra mais seriedade. Isto, assim mesmo. – E então… – pela posição aberta de sua boca previ o resultado.

- Não, não precisa. – ainda bem. – Você tem quantos anos? 60? - estava tão acabado assim? Ao menos entregou-me o vinil. - Ou foi tudo para me impressionar? Porque, se foi… – pode desistir. Não vai conseguir. Acertei? – conseguiu. – lá estava ele sorrindo para mim. – Por isto você vai me pagar uma cerveja. 

- Vou? – claro que vou. Mas era necessário ser feito um certo charme para ser levado mais a sério. 

- Claro que vai. – exato.-  Espere 10 minutos, é o tempo de acabar meu expediente. Também preciso trocar de roupa. – ele tinha notado. – Se não fosse a cor da camiseta estaríamos iguais. Melhor não parecermos um casal. – não antes da hora. – Não ainda. – incrível. Ele sabia ler pensamentos? É a única explicação lógica.

- Ahhh… Não esqueça, quero um cd de Britney. – sorri.

- CD DE BRITNEY. TÊM OUTROS? – fui escutado. – QUERO UM TAMBÉM. – o grupo de meninos largou o cd de Spice Girls a simples menção do nome Britney. Quanto fanatismo. Não sabem que ela faz playback e futuramente será careca? Também não sabia isto na época.

- Estraga prazeres. – o olhar dele não era de raiva, sim de diversão, quando me sussurrou estas palavras. – Ele falou que queria um cd, pessoal. Não que tem um aqui. Saibam diferenciar. O último suas amigas levaram. – as garotas sorriram e acenaram. – Escolham logo um. A loja irá fechar.

     Esperei 10 minutos enquanto… qual o nome dele mesmo? Ok, não sei seu nome, mesmo assim beberemos cerveja juntos. Muito responsável da minha parte. Beber cerveja com um desconhecido. E se fosse um louco, tarado, maníaco sexual. Espero que não seja louco, mas maníaco sexual… bem que ele poderi… Pare com isso.

- Leonardo Maia. Pode me chamar de Leo. – nossa… dez minutos haviam se passado desde o pensamento sobre o nome. Mesmo assim ele o leu. – Aqui está seu cd. Não conte aos fanáticos por ela. Você consquistou o direito de tê-lo. Não te devorarei. – e era mesmo o cd. Envolto em um embrulho, provavelmente, para não chamar atenção.

- Quanto custa, Leo? – primeira vez que eu disse este nome. Ainda não sabia que ele seria gravado a fogo por cada parte de meu corpo.

- Já disse… você passou no teste da esfinge. Se quiser, ele custará outra pergunta. – qualquer uma. – Saber seu nome. – agora ele usava uma camisa pólo lilás e uma calça jeans. O all star era o mesmo.

- Thales Guerra. – apertei sua mão. Como era firme.

- Não pense que perdoei sua dívida. – qual delas? Se nos envolviam juntos pelad… controle seus hormônios. Cuidado com as espinhas. – Você ainda me deve uma cerveja. – só isto? – Este é o preço por ter me surpreendido musicalmente. Ou acha que saber seu nome cobre a dívida. – espero mesmo que não. – Vamos, ou devoro-te. - à vontade.