coffee and cigarettes

você tem meia hora pra mudar a minha vida.

Era uma vez na sala julho 20, 2009

Filed under: [era uma vez],[sem título] — edgeof7thfloor @ 1:42 am

     NÃO PODE SER…

     Feche os olhos. Mentalize. Nada disto é real. É uma ilusão. Claro que é uma ilusão. Devido ao estresse em escolher a roupa. Será que estou sonhando e perdi a hora do jantar? Ou a porta de meu quarto é um portal a uma realidade hippie onde todos são amigos e vivem em paz e amor?

    Relembre a cena: Fernando, claro, incrivelmente charmoso, sentando no sofá. Usava uma camisa social azul clara, com litras horizontais. Jeans escuro e um sapatênis bege. Fiquei aliviado. Minha roupa poderia não estar à altura, mas, ao menos, não causaria vexames. Ao seu lado, uma empolgada Amanda gargalhava histericamente. O grau de intimidade entre eles era tamanho, a ponto de existir contato físico nos intervalos entre as gargalhadas. Em contrapartida, para meu espanto, Fernando sorria. Esta poderia ser minha preocupação, mas não era. Ele parecia se divertir com o assunto.

     Na poltrona, em frente ao sofá, estava sentad…

- Thales, está brincando de cabra cega? – fui descoberto. Na verdade sequer tentei me esconder. O estado de choque não permitia. - Siga minha voz…. – tentativa, falha, de voz fantasmagórica. Lembrou-me uma cabra.- Tente me encontrar. – béééé..ééé

 Não teve graça, Amanda. – comecei a passar vergonha; ÓTIMO! Ainda não saímos de casa e estou de olhos fechados. 

- Só você não achou graça. – era verdade. Abrindo os olhos vi os belos dentes de Fernando sorrindo para mim. Ou seria de mim. Leo, provando não ser um delírio, também sorria. Não com os dentes, como os outros, mas com os olhos. Conheço bem este sorriso. Um dos motivos de minha paixão.

- Verdade, Thales. – obrigado por confirmar, Fernando. Preciso mesmo de mais motivos para Amanda rir de mim.  - Vamos indo?

- É ele? – meu Deus, não permita que eu passe tamanha vergonha. – É ele seu amante espanhol? – Amanda não sabia como ser discreta. Não sabia sussurrar. E não sabia que não sabia fazer isto. E eu não mais sabia o que estava dizendo. Sinalizei negativamente. Por favor, entend… DROGA, ELE NOTOU!

- Como? – Fernando escutou? Leo escutou? Eu escutei. Vocês escutaram? – Falou algo? – não, responda que não. Por favor, Amanda. Ao menos um dia se porte como minha irmã.

- Ela nã…

- Foi comigo que ela falou. - fui interrompido, por Leo. Logo ele a me ajudar. Melhor Fernando saber a verd… não. Melhor a proteção inesperada do ex-namorado à humilhação com o atual… O atual…  Fernando. – Este não é o amante de Thales, Amanda. – obrigado, Leo. Mas não precisava ser tão explíc… – Não namoramos mais para ele ser chamado assim. Eles estão namorando, acho. Se bem que o mais provável é que seja apenas sexo casual. Thales é tão facilmente usado. Não me espantaria. Estou certo, meu bem? - este riso sarcástico. Este olhar. Esta mão nos cabelos.

     Respire. Respire. RESPIRE…

- Não falei “amante”. – Amanda e as aspas. Agora era tarde para remediar a situação. – Falei “Amanda”. A-MAN-DA. Estava falando comigo. Sou louca. Algumas vezes isto acontece. – ótima resposta, Amanda. Muito boa mesmo. Além de péssimo o momento, uma das piores desculpas já inventadas. Mesmo sendo verdade a parte da louca.

- Vamos indo? – este ritmo forte de respiração deixou-me tonto. Nossa… cuidado para não desmaiar. Desmaiar lhe impedirá de matar Leonardo. – Está ficando tarde.

- Vamos. – Fernando também parecia constrangido quando levantou. Um maravilhoso jantar nos esperava. No cadápio, silencio como entrada. Constrangimento, como prato principal.

- Sim, sim… – o calor em meu rosto foi capaz de superar o frio em minha barriga. Preferi não imaginar a intensidade do vermelho que me tingia.

- Não esqueça de pedir a Thales o prato princ…

- LEONARDO MAIA! – o limite de tolerância fora extravasado, mas o respeito deveria ser mantido. – CALE ESSA MERD…

- Não precisa ficar nervoso, Thales. – oi? Minha consciência tem uma voz identica a de Fernando. - No lugar de seu ex namorado também estaria assim, agressivo. – não era minha consciência. Era o próprio Fernando. – Afinal, estragar o relacionamento com uma pessoa - idiota? Submissa? Indecisa? Insegura? Nossa, não deve ser muito difícil. – inteligente, encantadora, simpática, linda como você. Nossa… não sei o que eu faria. Seriam várias noites de choro e prozac para superar. Poderia precisar de um pouco de terapia também. – o… qu… quê? Com… Oi? Cada nova palavra dita por Fernando era conferida, entre vários beliscões em meu braço, pela minha arte de leitura labial. . Queria ter certeza de não estar sonhando. – Vamos… não quero que percarmos nossa reserva por tamanha infantilidade. Será uma noite muito especial. Afinal, é nossa primeira juntos. Tenham uma boa noite.

     Esta é a imponência que eu sabia existir.

- Tchau, Thales. – Amanda… que pessoa inacreditável. Dar tchau e sorrir neste momento. Sorri. Não apenas de Amanda, também de Leo. De Leo e seu olhar de frustração. Provavelmente fora a primeira resposta ao seu sarcasmo. – Divirta-se. Até amanhã. – odeio gostar da minha irmã.  

 

Era uma vez no quarto [perguntas retóricas]. julho 11, 2009

Filed under: [era uma vez],[sem título] — edgeof7thfloor @ 6:31 pm

- Você e o Leo acabaram?

- Se eu fingir estar dormindo posso não responder? – perguntas retóricas nunca foram meu forte. O que são perguntas retóricas mesmo?

- Não adianta. Sei que você está acordado. – e lá se ia a proteção de meu lençol. Não estava mais imune a nenhuma pergunta.

- O que você quer? – sorte não ter um espelho em frente à minha cama. Sempre evitei meu reflexo quando acordo. O efeito que os lencois exercem sob meus cabelos é absurdo.

- Nunca entendi o motivo de você insistir em usar de cinismo comigo. Até parece que não sou sua irmã querida. – Amanda sabia, como ninguém, me tirar do sério. – Você fumou? Está um cheiro de cigarros insuportável aqui.

- Dá para levantar da minha cama, por favor? – já me bastava o instinto invasivo de Amanda, mas sentar na minha cama, para falar de um assunto incoveniente? Por favor! – Se quiser, sente na cadeira.

- Não precisa ficar com vergonha de estar pelado. O Rafael sempre dorme pelado comigo. O que você tem vejo todos os dias. Além de que sou sua irmã mais velha, troquei suas fraudas. Dei banho em você. – pelado? Ela é louca!

- AMANDA… não estou pelado. Mas, POR FAVOR, – espero ter dado a ênfase necessária ao pedido. – VÁ PARA A CADEIRA!

- Tudo bem. Tudo bem. Não precisa ficar nervosinha.

- NERVOSINHA? – odeio ser tratado com substantivos femininos. – Você sabe que ODEIO quem me trata desta forma.

- Eu sei. Por isto te trato assim. – ela estava inquieta. Vasculhava cada parte do quarto com os olhos enquanto me respondia sempre com um sorriso sarcástico. – Antes de continuarmos o assunto, onde está o cigarro?

- Cigarros? – tentando me cheirar o mais discretamente possível para a verdade não ser tão evidente, olhei para minha calça. Será que eu estava fedendo tanto a cigarro? – Eu não fum…

- Só quero saber a localização deles.  Prometo não contar a ninguém sobre seu novo vício. – o desespero estava registrado naquele olhar.

- No bolsa de minha calça. – me rendo.

- Obrigada. Estava precisando de um. – sorrindo-me, pegou um malboro e andou tranquilamente até a janela. Abrindo-a, acendeu o cigarro. -Cof, cof, cof…

- Não sabia que você fumava. - não era uma ironia.

- Não fumo desde… – momento pensativo de Amanda. São raros estes. – quando fui ao motel com Rafael pela última vez. Em torno de uns trê…

- Ok! Já entendi. – minha imaginação transitava por cenas jamais pensadas. Não precisava de maiores detalhes.

- Pronto. Salvei sua vida. Este não será o cigarro que irá matá-lo. Você fica me devendo esta. – foram pouco mais de duas tragadas e o cigarro voou pela janela do prédio. – Este é o dever de uma irmã mais velha. Cuidar para que seu irmão não entre em vícios errados. – vícios errados? Será que existem vícios certos? – Agora me fale. E o Leo?

- Não tem nada para falar. – o assunto mudava de uma forma assustadora com Amanda. Da melhor irmã do mundo, a pior apresentadora de talk show do Brazil. – Não estamos mais juntos. Só isto.

- Só isso, senhor cinismo? Você considera “só isso” um namoro desde… – momento pensativo parte dois. Seria melhor que este não fosse tão preciso quanto o anterior. – seus 15 anos?

- 16. – ela estava certa. Mas não era bom deixá-la saber disto.

- Não importa. Vocês têm uma história juntos. Nem sua “viagem”… – sempre odiei este símbolo de aspas feito com os dedos. É de tamanha redundância. A própria pronuncia é capaz de me fazer entender que é necessário o uso de aspas na palavra em questão. Não sou retardado. – separados. – próxima vez prometo não devanear a ponto de perder o assunto.

- É. – concordando talvez ela vá embora. Conhecendo Amanda dará abertura a novas perguntas.

- Como assim, “É”? – não se distraia com o sinal de aspas. Ele é perigoso. – Quer dizer que existe outro alguém? – e mais uma vez me mostro certo.

- … hum. – responda logo. Quanto mais demorada for a resposta maior será a probabilidade de novas teorias. Concorde. Assim ela irá embora. – É. – isso. Balançar a cabeça transpassa maior credibilidade.

- Existe? Quem é está pessoa? – como posso confirmar uma das teorias de Amanda? Onde estou com a cabeça? Quero um cigarro. - É o espanhol? Ele ligou? Ou já é um brasileiro? Como ele é? Qual a idade? O que faz da vida? Como foi a reação do Leo? Vocês já transaram? Você foi ativo? Foi passivo? – ativo? Passivo? Descubro seu nome ontem e as perguntas sobre preferências sexuais aparecem em minha frente. – Se bem que você ser ativo é um pouco difícil.

- Como? – a última frase foi dita entre os dentes. Talvez a tenha entendido errado.

- Nada. – o sorriso formado em seus lábios respondeu diferente das palavras que deles sairam. – Qual o nome dele? O que ele faz? Me conte tudo.

- O nome dele -  não adiantava mais resistir. – é Fernando. Ele é m… – BUÁÁÁ… honestamente; preciso comprar um presente para o Rafinha. Sempre ele a me salvar de Amanda e suas perguntas. Seriam estas as retóricas?

 

roteiros de sofá. fevereiro 14, 2009

Filed under: [era uma vez],[sem título] — edgeof7thfloor @ 9:22 pm

                                                                 

 

- Suspiros de paixão ou aflição? – minha distração era tamanha que sequer notei a aproximação de Amanda, minha irmã.

- Bom dia! – falei virando-me. – Dormiu bem? – tendo em vista que em seu quarto dormia uma criança de pouco mais de um ano a resposta era óbvia. Sob seus olhos habitavam enormes olheiras, dignas de estrear um filme de Tim Burton. Acompanhadas, claro, de um cabelo monstruosamente assanhado.

- Se foi uma ironia pode desistir. Não consigo entendê-las desde que o Rafinha nasceu. – o mau humor, típico do sono acumulado, completava o estereótipo de uma noite mal dormida. Jogando-se, literalmente, no sofá, Amanda bocejou. – Aaaa… aach… acho que respondi sua pergunta.

- Com uma clareza inquestionável.

- Ainda estou esperando minha resposta.

- Que resposta? – havia esquecido que a persistência era um dom de família.

- Não estou com paciência para cínicos hoje. Então, vou continuar fingindo que está tudo bem entre você e o Leo e mudar o assunto. Como foi a viagem? – a objetividade era um dom exclusivo de Amanda. – Se é que podemos continuar chamando de viagem permanecer mais de dois anos em um país. Aposto como tem algum espanhol envolvido. Alto, com a barba mal feita. Dono de um sotaque maravilhoso envolto por uma voz sedutora. Pintor! Ou quem sabe músico. Um artista. Não, um arquiteto. Por volta dos 37 anos. Queria que você ficasse, que morassem juntos. Mas você não ficou. Não poderia ficar. Afinal, o Leo estava aqui. E você o ama. Então voltou. – e fechando os olhos, suspirou. – Só que nada foi como planejado. As brigas são as mesmas. O beijo é o mesmo. O sexo é o mesmo. Se é que vocês ainda fazem. E agora você está arrependido. Sente falta do Juan.

-Juan? Prefiro Ramon. Ramon Gonzalez.- nossa! Até nome meu amante fictício recebeu.

- Não importa… Então desconta suas frustrações no Leo. Pela falta de comprometimento dele. Mas não enxerga que isto é consequência de sua omissão nesses dois anos. E então… acertei? – BUAAAÁ…. estava salvo. Graças ao Rafinha.

 

 
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