
NÃO PODE SER…
Feche os olhos. Mentalize. Nada disto é real. É uma ilusão. Claro que é uma ilusão. Devido ao estresse em escolher a roupa. Será que estou sonhando e perdi a hora do jantar? Ou a porta de meu quarto é um portal a uma realidade hippie onde todos são amigos e vivem em paz e amor?
Relembre a cena: Fernando, claro, incrivelmente charmoso, sentando no sofá. Usava uma camisa social azul clara, com litras horizontais. Jeans escuro e um sapatênis bege. Fiquei aliviado. Minha roupa poderia não estar à altura, mas, ao menos, não causaria vexames. Ao seu lado, uma empolgada Amanda gargalhava histericamente. O grau de intimidade entre eles era tamanho, a ponto de existir contato físico nos intervalos entre as gargalhadas. Em contrapartida, para meu espanto, Fernando sorria. Esta poderia ser minha preocupação, mas não era. Ele parecia se divertir com o assunto.
Na poltrona, em frente ao sofá, estava sentad…
- Thales, está brincando de cabra cega? – fui descoberto. Na verdade sequer tentei me esconder. O estado de choque não permitia. - Siga minha voz…. – tentativa, falha, de voz fantasmagórica. Lembrou-me uma cabra.- Tente me encontrar. – béééé..ééé
- Não teve graça, Amanda. – comecei a passar vergonha; ÓTIMO! Ainda não saímos de casa e estou de olhos fechados.
- Só você não achou graça. – era verdade. Abrindo os olhos vi os belos dentes de Fernando sorrindo para mim. Ou seria de mim. Leo, provando não ser um delírio, também sorria. Não com os dentes, como os outros, mas com os olhos. Conheço bem este sorriso. Um dos motivos de minha paixão.
- Verdade, Thales. – obrigado por confirmar, Fernando. Preciso mesmo de mais motivos para Amanda rir de mim. - Vamos indo?
- É ele? – meu Deus, não permita que eu passe tamanha vergonha. – É ele seu amante espanhol? – Amanda não sabia como ser discreta. Não sabia sussurrar. E não sabia que não sabia fazer isto. E eu não mais sabia o que estava dizendo. Sinalizei negativamente. Por favor, entend… DROGA, ELE NOTOU!
- Como? – Fernando escutou? Leo escutou? Eu escutei. Vocês escutaram? – Falou algo? – não, responda que não. Por favor, Amanda. Ao menos um dia se porte como minha irmã.
- Ela nã…
- Foi comigo que ela falou. - fui interrompido, por Leo. Logo ele a me ajudar. Melhor Fernando saber a verd… não. Melhor a proteção inesperada do ex-namorado à humilhação com o atual… O atual… Fernando. – Este não é o amante de Thales, Amanda. – obrigado, Leo. Mas não precisava ser tão explíc… – Não namoramos mais para ele ser chamado assim. Eles estão namorando, acho. Se bem que o mais provável é que seja apenas sexo casual. Thales é tão facilmente usado. Não me espantaria. Estou certo, meu bem? - este riso sarcástico. Este olhar. Esta mão nos cabelos.
Respire. Respire. RESPIRE…
- Não falei “amante”. – Amanda e as aspas. Agora era tarde para remediar a situação. – Falei “Amanda”. A-MAN-DA. Estava falando comigo. Sou louca. Algumas vezes isto acontece. – ótima resposta, Amanda. Muito boa mesmo. Além de péssimo o momento, uma das piores desculpas já inventadas. Mesmo sendo verdade a parte da louca.
- Vamos indo? – este ritmo forte de respiração deixou-me tonto. Nossa… cuidado para não desmaiar. Desmaiar lhe impedirá de matar Leonardo. – Está ficando tarde.
- Vamos. – Fernando também parecia constrangido quando levantou. Um maravilhoso jantar nos esperava. No cadápio, silencio como entrada. Constrangimento, como prato principal.
- Sim, sim… – o calor em meu rosto foi capaz de superar o frio em minha barriga. Preferi não imaginar a intensidade do vermelho que me tingia.
- Não esqueça de pedir a Thales o prato princ…
- LEONARDO MAIA! – o limite de tolerância fora extravasado, mas o respeito deveria ser mantido. – CALE ESSA MERD…
- Não precisa ficar nervoso, Thales. – oi? Minha consciência tem uma voz identica a de Fernando. - No lugar de seu ex namorado também estaria assim, agressivo. – não era minha consciência. Era o próprio Fernando. – Afinal, estragar o relacionamento com uma pessoa - idiota? Submissa? Indecisa? Insegura? Nossa, não deve ser muito difícil. – inteligente, encantadora, simpática, linda como você. Nossa… não sei o que eu faria. Seriam várias noites de choro e prozac para superar. Poderia precisar de um pouco de terapia também. – o… qu… quê? Com… Oi? Cada nova palavra dita por Fernando era conferida, entre vários beliscões em meu braço, pela minha arte de leitura labial. . Queria ter certeza de não estar sonhando. – Vamos… não quero que percarmos nossa reserva por tamanha infantilidade. Será uma noite muito especial. Afinal, é nossa primeira juntos. Tenham uma boa noite.
Esta é a imponência que eu sabia existir.
- Tchau, Thales. – Amanda… que pessoa inacreditável. Dar tchau e sorrir neste momento. Sorri. Não apenas de Amanda, também de Leo. De Leo e seu olhar de frustração. Provavelmente fora a primeira resposta ao seu sarcasmo. – Divirta-se. Até amanhã. – odeio gostar da minha irmã.


Eles Dizem