coffee and cigarettes

você tem meia hora pra mudar a minha vida.

No jardim. Julho 7, 2009

Arquivado em: [festa], [sem título] — edgeof7thfloor @ 11:28 pm

     Estava frio. O gelo em meu copo derretera, tornando a vodca intragável. O som da música, conforme meus passos cambaleantes se afastavam da pista de dança, diminuia. A dor de cabeça era a única a aumentar. O senhor olhar misterioso havia sumido de minha visão. Não apenas ele, como qualquer objeto ou pessoa a mais de um metro. Além da visão turva digna de um bêbado, meus óculos estavam incrivelmente sujos. Porém, não ousei limpá-los. Uma atitude tão radical quanto esta poderia repercutir na perda do mesmo.

- BLERGGG… – vomitei repentinamente. Ótimo; nunca mais, em toda minha vida, quero beber.

Era inacreditável minha falta de sorte com a bebida. Em experiências posteriores falei o que não devia. Beijei quem não devia. Acordei pelado na cama de quem não devia. Vomitei onde não devia, e em quem não devia. Mas, nunca havia deixado de falar algo, ou fazer algo, devido à bebida.

- Maldita, maldita. MALDITA! – chutei uma pedra de tanta frustração. Isto sim deveria ser algo que a bebida teria que me impedir de fazer. Mesmo assim não fez. Agora tinha outra companheira; a dor no pé.

- Você está bem? – ajuda, tudo que eu não precisava. Era uma voz suave, precedida de um pigarro. Resisti o quanto pude para não olhar o estranho. Seria humilhante demais ser reconhecido vomitando e chutando pedras. Apenas balancei a cabeça afirmativamente. - Irei pegar um pouco d’água para você.

Bom samaritano, ou aproveitador de bêbados indefesos? Este seria meu questionamento durante os poucos minutos que custou para este indivíduo misterioso voltar.

- Vou molhar sua cabeça. Vai ajudar um pouco. – não havia mudado de posição desde que escutei sua voz. Abaixado, com as mãos apoiadas nos joelhos. Assim estava, assim fiquei.

- NOOOOOSSAAAAAA…. – era mais gelada do que eu esperava. Mas, ao mesmo tempo, bastante relaxante.

- Desculpe. Mas era ideal que a água fosse a mais gelada possível. – aquele afago em minha cabeça não devia fazer parte do tratamento, mas me fez sentir muito bem. – Seria bom levantar a cabeça por um tempo. Assim só irá prolongar mais o enjoo.

     Relutei. Levantar a cabeça entregaria minha identidade secreta ao bom samaritano. Ou seria mesmo um aproveitador de bêbados pronto para me assediar? Qualquer opção seria melhor que permanecer nesta posição. A gravidade, travando uma disputa feroz com meu auto controle, tentava me arrancar mais vômitos.

- Pronto. Melhor ficar assim. – encarei-o de olhos fechados. Não queria olhar para meu salvador e me sujeitar à vergonha de conhecer sua identidade. – Pode abrir os olhos. Não precisa ter vergonha. – senti o sorriso entre suas palavras.

     Abri apenas um dos olhos. Não queria reconhecê-lo. Só poderia ser brincadeira. O barman havia colocado algo em minha bebida. Esta era a única justificativa. Não poderia ser logo ele a me ajudar.

- Você… seu olhar… não me é estranho. – aquele olhar enigmático agora tentava desvendar o mistério em mim. Não posso negar o tamanho prazer por tal fato. - Acho que te conheço. – me conhece? CLARO QUE ME CONHECE. Nos encontramos no aeroporto. Nossos olhares se encontraram no aeroporto. Repetidas vezes, caso não lembre. VOCÊ ME FEZ VOLTAR AO BRAZIL. Espero não ter, inconscientemente, verbalizado estes pensamentos. – Você está bem? – e lá vem outrooooooo….

- BLERGGGGG… – logo agora?

 

Sensualidade no bar. Julho 7, 2009

Arquivado em: [festa], [sem título] — edgeof7thfloor @ 2:45 pm

- Esta já é sua sétima dose de vodka, senhor.  Não seria conveniente parar um pouco?

     O que este barman sabe, além de como pentear o cabelo e ser incrivelmente bonito. 

- Sétima? Se bem me lembro é a terceira. Você nunca capricha nas minhas doses. – todo este impulso que me acometia sob efeito alcoólico era responsável pela minha reclinação no balcão. Não era, claro, culpa da linda boca rosada do barman. – Que vontade de mord…

- O senhor está bem?  

- Claro que sim. – preciso controlar estas verbalizações de pensamentos. – Na verdade, não. – quase vomito. Vou cortar da minha lista de sensualidades beber vodka rapidamente. Não é nem um pouco sexy quando você deixa escapar pela lateral da boca.

- Culpa do Dj?

- Como você sabe? – havia ficado tão explicito assim?

- Também não gostei do som dele. Muito comercial. – acho que ele não me entendeu. Mas o que este barman deveria entender além de como pentear o cabelo e ser incrivelmente bonito… Eu já pensei isso? Acho que sim… não lembro. Maldita bebida. – Estou na hora do intervalo. Não quer ir à piscina comigo? Fugir um pouco deste som. Conversarmos melhor.

- Para que eu morra afogado? Estou bêbado. – e com medo.

- Prometo não deixar que isto aconteça. Sei nadar bem. – esse sorriso sim era sexy. Nada parecido com meu sorriso desesperador.

- Antes preciso ir ao banheiro. – e deixar de pensar em todas as possíveis coisas que gostaria de fazer com você. Ao menos o banheiro me faria controlar esta sede incontrolável.

- Vamos. Mostrarei a você onde fica. – agora era impossível. Saindo de trás do balcão andou até onde eu estava. Era como se cada um dos seus passos controlasse o ritimo de meu coração. Não dava mais para manter o controle. Esse hálito quente em meu pescoço. Essa barba mal feita quase encostando em meu rosto. Impossível resistir.

- Me faz uma caipirinha caprichada, por favor. – maldito alcóolatra incoveniente. 

     Meu olhar se direcionou com furia para enxergar quem seria a pessoa que estragou este momento. Lá estava ele. Seu bronzeado um pouco mais apagado. Seu rosto um pouco mais cansado. Seu cabelo um pouco mais assanhado. Sua altura não impunha mais o mesmo respeito. Estava curvado, parecendo muito cansado. Mas o olhar; este sim era o mesmo. Foi assim que o reconheci. E foi assim que novamente me perdi.

- Obrigado. – sequer notou minha presença enquanto esperava a caipirinha. Saiu bebendo-a sem me olhar.

- Vamos continuar de onde paramos? – não. Não quero mais.

- Preciso ir ao banheiro. Depois nos falamos. – e corri. Corri para desvendar o motivo de minha volta ao Brazil.

 

surdez noturna. Junho 11, 2009

Arquivado em: [festa], [sem título] — edgeof7thfloor @ 11:28 pm

ritmo de festa

     Festa, segundo o Aurélio:  1. Reunião alegre para fim de divertimento. 2. Solenidade, comemoração. 3. Dia santo. 4. Regozijo, alegria.

     Festa, segundo Thales: evento social regado a bebidas alcóolicas com o intuito do acasalamento. Seres de ambos os sexos, utilizando-se de danças exóticas, tentam acasalar com o maior número de parceiros. Macho alfa, humano do sexo masculino detentor do recorde de fêmeas na noite em questão. Fêmea alfa, eufemismo para put… Evento propício para casais em fase terminal. A alta música, capaz de silenciar pensamentos, serve de barreira para insultos e discussões.

- Thales… dirigindo? – “dirigindo”? Como assim? Será que Leo estava bêbado o suficiente para achar que dirijo?

- ESQUECEU QUE EU NÃO SEI DIRIGIR? – era quase impossível escutar minha voz. Principalmente ao lado de uma escandalosa senhora pedindo a música do cupido. Esta música estava ultrapassada. Será que ela não sabia?… Olhando seu vestido conclui que não.

- DIRIGIR? QUEM FALOU EM DIRIGIR? – era quase impossível escutar qualquer som naquela festa. Já o cheiro de cigarros poderia ser sentido a quilômetros de distância. – FALEI EM DIVERTIR. VOCÊ ESTÁ SE DIVERTINDO?

- AAHHHHHH… – “oh cupido, vê se deixa em paz”……….. Nossa! Espero que a garganta desta mulher vá pelos ares desta vez. – ESTOU ME DIVERTINDO MUUUUU… ITO! – forcei um sorriso misturado com uma súbita expressão de dor. Meu pé estava latejando, graças ao salto alto da desesperada pelo cupido. Acho que ele conseguiu acertar uma de suas flechas. Finalmente ela deu seu último grito, pouco antes de cair no chão. O sacrifício de meu pé serviu a um propósito maior.

     Odeio festas… Odeio roupas sociais. Odeio música alta. Odeio o cheiro do cigarro. Odeio gritos. Odeio ficar de braços cruzados ao lado da cabine do Dj.

- ESSA MÚSICA É PRA VOCÊ, THALES! – informou-me o escândaloso Leo.

     Odeio ser o namorado do Dj. Mereço outra dose de vodka.