
Estava frio. O gelo em meu copo derretera, tornando a vodca intragável. O som da música, conforme meus passos cambaleantes se afastavam da pista de dança, diminuia. A dor de cabeça era a única a aumentar. O senhor olhar misterioso havia sumido de minha visão. Não apenas ele, como qualquer objeto ou pessoa a mais de um metro. Além da visão turva digna de um bêbado, meus óculos estavam incrivelmente sujos. Porém, não ousei limpá-los. Uma atitude tão radical quanto esta poderia repercutir na perda do mesmo.
- BLERGGG… – vomitei repentinamente. Ótimo; nunca mais, em toda minha vida, quero beber.
Era inacreditável minha falta de sorte com a bebida. Em experiências posteriores falei o que não devia. Beijei quem não devia. Acordei pelado na cama de quem não devia. Vomitei onde não devia, e em quem não devia. Mas, nunca havia deixado de falar algo, ou fazer algo, devido à bebida.
- Maldita, maldita. MALDITA! – chutei uma pedra de tanta frustração. Isto sim deveria ser algo que a bebida teria que me impedir de fazer. Mesmo assim não fez. Agora tinha outra companheira; a dor no pé.
- Você está bem? – ajuda, tudo que eu não precisava. Era uma voz suave, precedida de um pigarro. Resisti o quanto pude para não olhar o estranho. Seria humilhante demais ser reconhecido vomitando e chutando pedras. Apenas balancei a cabeça afirmativamente. - Irei pegar um pouco d’água para você.
Bom samaritano, ou aproveitador de bêbados indefesos? Este seria meu questionamento durante os poucos minutos que custou para este indivíduo misterioso voltar.
- Vou molhar sua cabeça. Vai ajudar um pouco. – não havia mudado de posição desde que escutei sua voz. Abaixado, com as mãos apoiadas nos joelhos. Assim estava, assim fiquei.
- NOOOOOSSAAAAAA…. – era mais gelada do que eu esperava. Mas, ao mesmo tempo, bastante relaxante.
- Desculpe. Mas era ideal que a água fosse a mais gelada possível. – aquele afago em minha cabeça não devia fazer parte do tratamento, mas me fez sentir muito bem. – Seria bom levantar a cabeça por um tempo. Assim só irá prolongar mais o enjoo.
Relutei. Levantar a cabeça entregaria minha identidade secreta ao bom samaritano. Ou seria mesmo um aproveitador de bêbados pronto para me assediar? Qualquer opção seria melhor que permanecer nesta posição. A gravidade, travando uma disputa feroz com meu auto controle, tentava me arrancar mais vômitos.
- Pronto. Melhor ficar assim. – encarei-o de olhos fechados. Não queria olhar para meu salvador e me sujeitar à vergonha de conhecer sua identidade. – Pode abrir os olhos. Não precisa ter vergonha. – senti o sorriso entre suas palavras.
Abri apenas um dos olhos. Não queria reconhecê-lo. Só poderia ser brincadeira. O barman havia colocado algo em minha bebida. Esta era a única justificativa. Não poderia ser logo ele a me ajudar.
- Você… seu olhar… não me é estranho. – aquele olhar enigmático agora tentava desvendar o mistério em mim. Não posso negar o tamanho prazer por tal fato. - Acho que te conheço. – me conhece? CLARO QUE ME CONHECE. Nos encontramos no aeroporto. Nossos olhares se encontraram no aeroporto. Repetidas vezes, caso não lembre. VOCÊ ME FEZ VOLTAR AO BRAZIL. Espero não ter, inconscientemente, verbalizado estes pensamentos. – Você está bem? – e lá vem outrooooooo….
- BLERGGGGG… – logo agora?


Eles Dizem